sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Os Patronos da Educação em Fortaleza

 

Geralmente a escolha dos nomes das escolas públicas envolvem homenagens a educadores, figuras históricas ou personalidades relevantes para a comunidade. O nome ideal deve ser fácil de lembrar, transmitir o diferencial da escola, e ser único para evitar confusões com outras instituições. As escolas de Fortaleza não fogem a regra, com predomínio de em nomes de educadores e políticos. 

Professores – Intelectuais

EM Professor José Valdevino de Carvalho – R. Guará, 98, bairro Parangaba


José Valdevino (Valdivino) de Carvalho (1911–1987) foi professor, poeta, escritor e acadêmico cearense. Graduado em Direito, foi professor de Português e Francês, destacando-se no magistério. Membro da Academia Cearense de Letras.

EM Manuel Lima Soares – Rua Cento Trinta, 60 - Parque Dois Irmãos

Manuel Lima Soares (1923–1990) professor, intelectual, jornalista e político cearense, radicado em Fortaleza. Atuou como vereador, redator e ocupou cargos na Secretaria de Educação do Ceará, sócio efetivo do Instituto do Ceará.

EMEIF Thomaz Pompeu Sobrinho – Rua José Meneleu, 531 – bairro Itaperi

Thomaz Pompeu de Sousa Brasil Sobrinho nasceu em Fortaleza em 1880. Formou-se em engenharia pela Escola de Ouro Preto, MG, com atuação em várias obras públicas. Foi membro efetivo do Instituto do Ceará e membro da Academia Cearense de Letras. Faleceu em 1967.  

EEFM Joaquim Alves – Rua Estado do Rio, 955 – bairro Demócrito Rocha

Joaquim Alves de Oliveira foi historiador, nascido em 1896. Membro efetivo do Instituto do Ceará, fundador da Sociedade Cearense de Geografia e História, e membro da Sociedade Brasileira dos Amigos de Astronomia e do Instituto do Nordeste.

EEEP Joaquim Moreira de Sousa – Rua Caio Prado, 2 – bairro Parangaba

Joaquim Moreira de Sousa foi diretor Geral da Educação no Ceará, cargo que ocupou entre 1933 e 1936. Ao ser exonerado, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro.

EMEIF Waldemar Barroso – Rua Cônego Lima Sucupira, 410 – bairro Serrinha

Waldemar Barroso de Souza Cordeiro nasceu em 1909, em Trairi-Ce. Foi juiz de direito em diversas comarcas quando se aposentou em 1961. Faleceu em Fortaleza em 1997.

EMTP Cláudio Martins – Rua Barão de Canindé S/N – Bairro Montese

Foi advogado, escritor, poeta e professor cearense, além de ter sido Presidente da Academia Cearense de Letras. Foi Secretário de Estado e titular das pastas da Fazenda e Educação. Nasceu em Barbalha em 1910 e faleceu em Fortaleza em 1995

EMTI Professora Antonieta Cals – Rua Monsenhor Salazar, 1480 – Bairro Tauape

Maria Antonieta Cals de Oliveira, educadora cearense, primeira mulher a gerir a Secretaria de Educação do Estado do Ceará. Pedagoga formada pela Uece, ela foi secretária de educação municipal e estadual, além de presidente do Conselho Estadual de Educação. 

EEEP Professor Joaquim Antônio Albano – Rua Júlio Siqueira, 390 – bairro Dionísio Torres

O Professor Joaquim Antônio Albano foi um educador e figura notável em Fortaleza, cujo legado é perpetuado na educação estadual.

EEFM Professor Jader Moreira de Carvalho – Rua Heloísa Ferreira Lima, 420 – Bairro Serrinha

Jáder Moreira de Carvalho (1901–1985) intelectual que atuava como professor, jornalista, advogado e escritor modernista, autor de romances como "Aldeota". Fundador do jornal Diário do Povo e membro da Academia Cearense de Letras. 

EMTI Professor José Júlio da Ponte – Rua Mario de Andrade s/n Bela Vista

José Júlio da Ponte Filho (1935–2013) agrônomo, pesquisador e professor emérito da Universidade Federal do Ceará, referência nacional em Fitopatologia. Pioneiro no uso de alternativas naturais a agrotóxicos, e pela pesquisa com manipueira no combate a pragas.

EEMTI Professora Adalgisa Bonfim Soares – Avenida Penetração Norte, 150 – bairro Conjunto Esperança

Adalgisa Bonfim Soares (1921–1979) foi uma educadora cearense, nascida em Redenção, Ceará, reconhecida por sua brilhante trajetória profissional no magistério.

EMTI Filgueiras Lima – Avenida dos Expedicionários, 3910 – bairro Jardim América


Antônio Filgueiras Lima (1909/1965). Educador, poeta e político cearense, fundador de diversas escolas e defensor da pedagogia funcional no Ceará. Fundou o Colégio Lourenço Filho e atuou como Secretário de Educação e Saúde do Ceará.

EEEP Joaquim Nogueira – Rua Moreira de Sousa, 327 – bairro Parquelândia



Joaquim da Costa Nogueira (1866-1935) foi um educador, diretor de colégios, fundador do Instituto de Humanidades em 1904, e editor de livros didáticos em Fortaleza, reconhecido por sua dedicação ao ensino e à educação do Ceará.   

EMEIF Professora Maria Odnilra Cruz Moreira – Avenida das Adenanteras, 800 – bairro Cidade 2000

Maria Odnilra Cruz Moreira nasceu em Juazeiro do Norte, CE, em 1922. Exerceu o magistério em várias unidades escolares, das redes municipal e estadual exercendo os cargos de professora e vice-diretora. Faleceu em 2001.

EMTI Professora Maria José Ferreira Gomes – Rua Cônego de Castro, 8617 – Bairro Parque Presidente Vargas

Maria José dos Santos Ferreira Gomes foi professora e educadora brasileira.  Atuou no Colégio Sant'Ana e no Dom José Tupinambá da Frota em Sobral. Faleceu em 2015, aos 86 anos.

EMEIF Ismael Pordeus – Rua Desembargador Faustino Albuquerque, 511 – bairro Jardim das Oliveiras

Ismael de Andrade Pordeus (1912–1964) historiador, pesquisador e sócio do Instituto do Ceará. Atuou como técnico de pesquisas no Arquivo Público e publicou diversas obras sobre fatos históricos. 

EMEIEF Mozart Pinto – Rua Jorge Dumar, 2078 – bairro Jardim América

Mozart Pinto Damasceno foi professor, conferencista, musicólogo, nascido em Canindé, em 1886. Membro da Academia Cearense de Letras e professor do Colégio Militar de Fortaleza e da Escola Normal. Faleceu em 1948.

EEEP Dona Creusa do Carmo – Avenida Sargento Hermínio, 2006 – bairro Monte Castelo


EM Creusa do Carmo Rocha – Rua Duas Nações, 1055 –bairro Granja Portugal


Creuza do Carmo Rocha (1897-1974) foi diretora-presidente do jornal O Povo, casada com Demócrito Rocha.


Religiosos

EMEIF Dom Manuel da Silva Gomes – Rua Samuel Uchoa, 550 – Bairro Bom Futuro




Dom Manuel da Silva Gomes (1874–1950) primeiro Arcebispo Metropolitano de Fortaleza entre os anos de 1915 a 1941. Nascido em Salvador, atuou ativamente na assistência social durante a seca de 1915 e impulsionou a criação das dioceses de Crato, Sobral e Limoeiro do Norte. 

EM Padre Felice Pistone – Rua Júlio César, 1810 – bairro Damas

Padre Felice Pistone foi um sacerdote católico, italiano, associado à congregação Sagrada Família de Nazaré, conhecido no Brasil por seu trabalho na educação e assistência social.  Está ligado ao desenvolvimento de ações voltadas a crianças e adolescentes, no contexto da expansão dos Colégios Piamarta no Brasil, que teve início em 1957.

EEFM Padre Rocha – Rua Coronel Alves Teixeira, 525 – bairro Joaquim Távora

Antônio Cândido da Rocha (1854-1932), Padre Rocha para os seus conterrâneos, padre, orador, jornalista, professor, Deputado Provincial e Constituinte, Diretor da Escola Normal de Fortaleza e Dramaturgo nasceu em Jaguaruana.


Escritores

Escola Municipal Antônio Sales – Rua Tavares Iracema, 675, bairro Rodolfo Teófilo

Antônio Sales foi poeta, romancista, jornalista e político cearense, reconhecido como um dos maiores nomes da literatura no Ceará. Nascido em Paracuru, destacou-se como fundador e líder da Padaria Espiritual.

CEJA Professor Moreira Campos – Rua Júlio Braga, 101 – bairro Parangaba


José Maria Moreira Campos (1914–1994) foi contista brasileiro, professor e membro fundador do Grupo Clã, fundamental na literatura cearense. Catedrático de Literatura Portuguesa, professor emérito da UFC, recebeu a Medalha da Abolição, destacando-se por contos traduzidos para diversos idiomas.


Políticos – Militares

EMTI Carolino Sucupira – Rua Mundica Paula s/n – bairro Itaoca

Carolino Cavalcante Sucupira foi um dos voluntários da Pátria, que se apresentaram espontaneamente para lutar na Guerra do Paraguai que durou de 1864 a 1870, obtendo a patente de Major durante o conflito. Depois da guerra fixou residência em Jundiaí (SP), onde faleceu em 1897.

EEFM – Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco – Rua Álvaro Fernandes, 913 – bairro Montese



EEMTI – Presidente Humberto de Alencar Castelo Branco – Rua Irmã Bazet, 210 – Bairro Montese



Humberto de Alencar Castelo Branco (1897-1967) foi marechal do Exército brasileiro e o primeiro presidente do regime militar (1964-1985), governando de abril de 1964 a março de 1967. Nasceu em Fortaleza em 1897 e faleceu em 1967 em um desastre aéreo.

EEM – Adauto Bezerra – Rua Monsenhor Liberato, 1850 – bairro Fátima

José Adauto Bezerra de Menezes, militar, empresário e político brasileiro, governador do Ceará entre 1975 e 1978. Nasceu em Juazeiro do Norte em 1926 e faleceu em Fortaleza em 2021.

EEM Dr. César Cals – Avenida Domingos Olímpio, 1800 – bairro Farias Brito

César Cals de Oliveira foi fundador do Centro Médico Cearense e um dos seus presidentes no período de 1937 a 1944. Também foi Presidente do Sindicato Médico Cearense de 1940 a 1943 e da Fundação D. Libânia Holanda, de 1941 a 1944. Na política, foi Prefeito de Fortaleza, em 1930 e 1931.

EEM Figueiredo Correa – Rua Marechal Deodoro, 733 – Bairro Benfica

Joaquim de Figueiredo Correia (1920–2003) foi um político cearense, educador e advogado, atuando como deputado estadual, vice-governador do Ceará (1963) e deputado federal (1967-1981) pelo MDB. Conhecido por sua atuação na educação e na oposição moderada durante a ditadura militar.

EMEIEF Vicente Fialho – Rua Irmã Bazet, 193 – bairro Montese

Vicente Cavalcante Fialho foi prefeito de São Luís (MA), de 1969 a 1971 e prefeito de Fortaleza de 1971 a 1975 por indicação do governador do Ceará César Cals. Foi deputado federal e Ministro das Minas e Energia, professor e engenheiro, nasceu em 1938 em Tauá-CE e faleceu em Fortaleza em 2022, em Fortaleza.

EEMTI Deputado Paulino Rocha – Rua Professor José Silveira, 528 – bairro Passaré

Paulino Rocha (1933–1979) foi um famoso comentarista esportivo cearense, conhecido como "campeão de audiência", e político influente. Eleito deputado estadual no Ceará em 1974 e 1978 pelo MDB, destacou-se como incentivador da construção do estádio Castelão. Faleceu aos 46 anos em Fortaleza.   

EEM Dr Ubirajara Índio do Ceará – Rua 751 s/n Bairro Conjunto Ceará

Ubirajara Índio do Ceará (Quixadá, 1912 — Fortaleza, 1979) foi um destacado magistrado, político e integrante do movimento integralista no Brasil. Atuou como delegado do Ministério do Trabalho, procurador e presidiu o Tribunal Regional do Trabalho da 7ª Região (TRT-7) no Ceará em 1970.

EMEIEF Paulo Sarasate – Rua Pedro Muniz, 250 – bairro Pan Americano

   

Paulo Sarasate Ferreira Lopes nasceu em Fortaleza em 1908 e faleceu no Rio de Janeiro em 1968. Foi advogado, jornalista e político brasileiro. Ocupou o cargo de Deputado Federal por quatro legislaturas e Governador do Ceará de 1955 a 1958.  

EEFM Félix de Azevedo – Rua Monsenhor Furtado, 757 – bairro Rodolfo Teófilo 

José Félix de Azevedo e Sá (1781–1827) foi militar e político brasileiro, nascido em Fortaleza. Atuou como presidente da província do Ceará em dois mandatos, de 1824 a 1826. Faleceu em Caucaia em 1827 aos 46 anos de idade.

EEEP Juarez Távora – Rua Ministro Joaquim Bastos, 747 – bairro Fátima

Juarez do Nascimento Fernandes Távora (1898-1975). Político e militar, Participou de vários movimentos revolucionários como a Revolta dos 18 do Forte, A Revolta Paulista de 1924, a Coluna Prestes em 1926, a Revolução de 1930 e a Revolução Constitucionalista.

EMEIEF Francisco Andrade Teófilo Girão – Rua Unidos Venceremos, 2040 – bairro   Passaré

Francisco Andrade Teófilo Girão foi um político cearense, eleito vereador de Morada Nova em 1970 e deputado estadual a partir de 1982. Atuou no parlamento em defesa dos municípios cearenses.


Fontes:

https://www.academiacearensedeletras.org.br/revista/revistas

https://www.institutodoceara.org.br

Jornal O Povo/Diário do Nordeste/Wikipédia/Prefeitura de Fortaleza/Governo do Estado do Ceará

Fotos Google/internet

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Novos Bairros de Fortaleza

 

No meio das modificações que assinalam o cotidiano das grandes cidades, a tradição e a modernidade travam uma luta diária. Enquanto os mais jovens conhecem bairros com nomes como Antônio Bezerra, Aldeota, Montese e Dias Macedo, moradores mais antigos lembram do Outeiro, do Mata Galinha, do Alto do Bode e Floresta. Mesmo com os antigos nomes em desuso, a lembrança é significativa para identidade e pertencimento do local.

bairro Antônio Bezerra antigamente

Desse modo algumas denominações foram apagadas do mapa da cidade, como o bairro Antônio Diogo, localizado na região do Mucuripe, hoje Praia do Futuro II, Jardim Glória no Distrito de Messejana, Cachoeirinha, no distrito de Antônio Bezerra, hoje bairro Padre Andrade, e Marupiara, no distrito da Parangaba, hoje bairro Demócrito Rocha.

Ainda na dança dos nomes, o Porangabussu virou Rodolfo Teófilo, a Vila Monteiro e a Vila Zoraide foram anexadas ao Joaquim Távora, o Coqueirinho e o Campo do Pio foram incorporados ao bairro Parquelândia, o Pantanal virou Planalto Ayrton Sena.



Atualmente a cidade está dividida em 12 secretarias executivas regionais e 121 bairros; em função do crescimento e da expansão dos horizontes de Fortaleza, novos bairros foram criados e outros foram divididos, como o bairro Conjunto Ceará I e II e o Praia do Futuro I e II

Dentre as novas denominações de bairros, temos, por exemplo, o De Lourdes , também comumente chamado pela população de Dunas, pelo seu posicionamento junto às dunas da Praia do Futuro.  Até meados do ano 2000, a área era pouco povoada. A ocupação demográfica ocorreu a partir da inauguração do marco zero do bairro, a Cruz do Cruzeiro.

O parcelamento e a posterior urbanização de terrenos dos Sítios Cocó, Tunga, Alagadiço, Cambeba, Estância e Colosso, localizados na zona leste da cidade, deu origem a diversos bairros da capital, como o Parque Manibura, Cambeba, Jardim das Oliveiras, Cocó.


O bairro Aracapé foi oficialmente criado em 2019, situado na área da Regional 10. de Antes do Censo de 2010, o Aracapé fazia parte do Mondubim. A separação veio após a nova divisão de bairros e aumento das regionais da Capital. Com 2,18 quilômetros quadrados de área, o Aracapé é cercado pelos bairros Presidente Vargas, Parque Santa Rosa, Conjunto Esperança, Mondubim e Planalto Ayrton Senna.


Bairro do Mondubim 

Novo Mondubim também foi criado em 2019, desmembrado de parte de terrenos da Vila Manoel Sátiro e Mondubim. Está localizado na zona leste de Fortaleza, fazendo parte da Regional 10, junto com bairros como Maraponga, Jardim Cearense e Conjunto Esperança. Estas duas unidades definiram o número de 121 bairros para o município de Fortaleza

O bairro  Coaçu está localizado entre Fortaleza e Eusébio, com acesso à rodovia CE-010, o que facilita a integração com outros pontos da região. Um dos atrativos do bairro é o Centro das Tapioqueiras.

 

Fontes: Prefeitura de Fortaleza/Jornal Diário do Nordeste

fotos internet

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Tipos Populares da Fortaleza Antiga

 

Chica Pinote 

Imagem criada por IA

Foi uma dessas figuras populares que povoam as histórias da Fortaleza antiga dos anos 1920, rejeitada em público, prestigiada no ambiente privado. Chica Pinote era prostituta, morena, alta e vistosa, que morava no Beco do São Bernardo, e costumava aparecer no meio do povo, de forma inesperada. Uma dessas aparições, que causou a maior celeuma, foi numa matinê do Circo Pery, armado na Praça da Estação.

Espetáculo iniciado, a arquibancada repleta de meninos, as cadeiras ocupadas pelos adultos, quando entra aquele mulherão, com vasto chapéu emplumado, faiscante de joias, e ocupa um dos camarotes que até então estava vazio. Todo o circo crava os olhos na mulher e acompanha seus movimentos um tanto exagerados. As famílias a olham indignadas, as mais próximas do camarote, levantam-se e saem.

Chica Pinote passou os olhos cheios de desdém pelo anfiteatro e dobrou o braço no gesto característico de “dar uma banana”, o que desencadeou uma gritaria geral. As famílias vão fazendo uma retirada em massa, e o diretor do circo reclama a presença da Polícia, que a muito custo consegue levar para fora a causadora do tumulto, a qual ameaça o delegado com o guarda-sol de rendas, empurra os soldados, e protesta aos gritos: - paguei o camarote com o meu dinheiro, que é igual ao dos outros! Não saio porque não quero!

O delegado compreende a situação, mas retira à força a Chica Pinote que recebe, aos prantos, a devolução do dinheiro com que pagou o camarote, dinheiro igual ao dos outros. O espetáculo continua, mas sente-se que foi estragado de qualquer modo. Nem os artistas estão trabalhando com o mesmo gosto, nem o público está aplaudindo com o mesmo entusiasmo. As filas de cadeiras e os camarotes estão quase vazios. 

Micaela


Imagem criada por IA

Muito se fala dos tipos populares que habitavam as ruas de Fortaleza do passado, homens meio loucos, meio excêntricos, quase todos mendigos, que viviam da caridade alheia e causavam agitação por onde passavam. Eram importunados nas ruas, alguns reagiam com agressividade, outros pareciam nem perceber que era alvo das chacotas. Mas poucos sabem que também havia muitas mulheres nesse bloco de gente esquisita.

A Micaela era negra retinta, varapau de quase dois metros de altura, com passo de soldado alemão, vestida de preto e saia arrastando no chão. Andava nas ruas pelo calçamento e atravessava as praças sempre em diagonal. Empunhava um grosso porrete, também preto, e a cada esquina parava, olhava para todos os lados e depois seguia seu caminho.

Diziam que era homem disfarçado de mulher, que botava feitiço, mas a Micaela que causava pavor a tanta gente, era tão somente uma pobre criatura que morava sozinha em uma palhoça para os lados do Prado Velho e só saía a rua para revolver as latas de lixo em busca de comida.

Casaca de Urubu 

imagem gerada por IA 

José Cândido, conhecido pela alcunha de Casaca de Urubu, foi o cobrador de dívidas mais empenhado que essa cidade já viu. Era o terror dos caloteiros e dos maus pagadores. Quando o credor perdia as esperanças, deixava a cobrança a cargo do Casaca de Urubu, que era servidor do Tribunal de Relação, e nas horas vagas, vivia de comissões com a cobrança de contas atrasadas. 

Era infalível a intervenção de Casaca de Urubu, conta na sua mão, era conta recebida. Tinha uma lábia incrível e para ele todos os meios para fazer o devedor quitar o débito, eram perfeitamente aceitáveis; em último caso ameaçava com escândalos, com gritaria e polícia na porta.

Ficava nas imediações da Praça do Ferreira à cata de seus clientes, que fugiam às léguas quando o viam e evitavam transitar pela praça.  O cerco não falhava: chegava uma hora em que o devedor não tinha mais como fugir e tratava de pagar, porque o Casaca de Urubu ameaçava, perseguia na rua, falava alto, chamava a atenção de todas as maneiras.

O apelido veio das roupas que usava rotineiramente, fraques descartados pelos desembargadores, que geralmente ficavam enormes no homem baixinho e gorducho. José Cândido era epiléptico, e com frequência sofria ataques e caía na via pública, acometido do mal, sempre que era alvo da molecada que o perseguia, aos gritos, com o apelido que o revoltava: Casaca de urubu... bubu!

Certa vez recebeu a incumbência de cobrar determinado devedor, que não havia meios de lhe pagar apesar de todas as ameaças que costumava lançar mão. Cansado de tanto vai e vem, e em último caso, propôs ao devedor que lhe pagasse ao menos sua parte, os 50% de comissão a que tinha direito. E recebeu. Em seguida, devolveu a conta ao credor e disse-lhe sem a menor cerimônia: “aqui está a parte de sua conta que não consegui receber, sendo que, os 50% da minha comissão eu já recebi”.

A Noiva do Tempo 

imagem criada por IA

Outra personagem bastante conhecida era a Noiva do Tempo, que estava convencida de haver recebido por herança uma grande fortuna e vivia nos bancos procurando recebê-la. Contavam que a mulher havia sido abandonada pelo noivo no dia do casamento, e nas suas andanças pela cidade, usando seu velho vestido de noiva, sujo e esfarrapado,  procurava pelo noivo e delirava sobre sua imaginária riqueza. Um dia a Noiva do Tempo foi atropelada por um ônibus, no Centro, nas imediações da praça do Coração de Jesus, e levou sua busca para outras dimensões.

Manezinho do BispoO Porteiro do Palácio 

imagem da Internet

Manoel Cavalcante Rocha, vulgo Manezinho do Bispo começou a trabalhar no Palácio do Bispo no dia 1° de janeiro de 1884, aos 18 anos de idade, durante o bispado de Dom Joaquim José Vieira, e lá permaneceu até morrer, no dia 30 de julho de 1923.

Oficialmente era o porteiro do palácio, mas acabou exercendo várias funções no local. Era o primeiro a acordar, e o último a dormir, cuidava da capela, ajudava missa, atendia na portaria, distribuía esmolas aos pobres, servia refeições. Só punha os pés na rua em caso de necessidade.

Manezinho do Bispo tinha o dom da escrita, elaborava textos e pensamentos que a muitos parecia sem nexo ou sentido, mas que era motivo de orgulho do seu autor. Colaborava quase diariamente na seção “ineditoriais” do Jornal Correio do Ceará, depois reunia em folhetos os seus apreciados pensamentos, que eram ansiosamente aguardados por seus inúmeros admiradores.   

Eis alguns dos originais pensamentos do Manezinho do Bispo, que fizeram época e o transformaram em motivo de chacota na cidade.

O Passeio Público é um aprazível lugar para quem vai ali com boas intenções.

Amar sem ser amado é correr atrás de um trem e perder

O bacharel pobre que casa com moça pobre dá um tiro com a pistola do passado nos miolos do futuro.

Gostaria de ser como as borboletas: as borboletas voam e eu não voo.

Conta-se que o bispo D. Joaquim, aborrecido com a grande papelada que enchia o quarto do Manezinho, no Palácio Episcopal, chamou-o um dia e disse que queimasse aqueles folhetos. Manezinho saiu para a rua e queimou-os, vendendo pela metade do preço.Apesar do folclore em torno dos escritos de Manezinho do Bispo, muitos de seus textos são frutos de reflexões e pensamentos muito bem estruturados.

O Cangulo

Era um dos personagens mais assíduos das salas de exibição de filmes da velha Fortaleza, nome de batismo ignorado, conhecido pelo apelido de Cangulo, que ganhara nos tempos em que era aluno do Liceu do Ceará, onde cursara o primeiro ano. Popularíssimo no meio estudantil devido a feiura, um dia, resolveu largar a cidade natal e ir morar no Rio de Janeiro.  Durante muito tempo, ninguém ouviu falar dele.

Em agosto de 1909, os cinemas exibiam a reportagem do sepultamento do Presidente Afonso Pena, que falecera no mês anterior. O Pathé (primeiro cinematógrafo de Fortaleza, inaugurado em 1908, propriedade do italiano Vitor de Maio) estava literalmente cheio de estudantes, quando apareceu o Cangulo na tela, no melhor estilo papagaio de pirata, de pé por trás do cordão de isolamento dos guardas civis à porta do Palácio do Catete, quando saía o cortejo presidencial. Um grito uníssono  sacudiu a plateia:  – O Cangulo!!!

Seguiram-se estrepitosas salvas de palmas. Então, por mera coincidência, o Cangulo abriu a bocarra num sorriso sem dentes, como dirigido a seus antigos colegas. Grande aclamação abalou o cinema:  – Viva o Cangulo! Viva o Cangulo no Catete! Viva o sucessor de Afonso Pena! 

O escritor Gustavo Barroso o encontrou anos depois no Rio de Janeiro, vivendo como indigente, desiludido e acabado. Conseguiu com um amigo que o governo lhe fornecesse uma passagem de volta para Fortaleza, onde vivia seu pai, que vendia bananas na feira. Mas o Cangulo não deu sorte nesse retorno. Pouco tempo depois após uma discussão, foi assassinado a tiros de revólver por um certo Barbosa Lapada.  

Mané Coco era a alma do Café Java 

foto do Arquivo Nirez

Manuel Pereira dos Santos, vulgo Mané Coco era marmorista, e não foi só o fundador do Café Java, na Praça do Ferreira, ele era a alma do lugar, o que dirigiu e imortalizou o estabelecimento. Estava sempre de branco, de chapéu de palhinha e uma rosa no peito. Mané Coco era o bombeiro voluntário de Fortaleza. Sentiu cheiro de incêndio, ouviu falar de um, ele ia até lá. Carregava água para apagar o fogo; isolava os prédios vizinhos, enfiando o machado nos telhados, salvava vidas ameaçadas. Passava por cima das cumeeiras em chamas, assume os riscos, salva patrimônios. E não ganhava nada com isso.

Na rotina diária, sem incêndios, era o homem mais pacato deste mundo, e tinha habilidade para se sair de situações embaraçosas. Certa feita um grupo de cadetes da escola Militar, famosos pelas arruaças que promoviam pela cidade, o ameaçaram com uma boa surra, se não lhes dessem, gratuitamente, no Café Java, um jantar de sustância. Mané Coco promete então que o jantar ser servido, um jantar de galinha, e marca dia e hora.

No dia acertado, o bando de cadetes abanca-se na mesa já preparada. Ele ordena ao seu empregado: --- seu Chico, sirva o jantar a esses meninos.

O Chico serve cerimoniosamente diante de cada convidado forçado, um prato cheio de grãos de milho. Os cadetes se entreolharam surpresos, e quando reclamaram, Mané Coco respondeu com fingida ingenuidade: - estou cumprindo a promessa. Jantar de galinha não é milho? Os estudantes acharam muita graça e deixaram-no em paz. Quando morreu, foi uma comoção. Foi para a eternidade todo de branco, com sua eterna flor na lapela.


Fontes de pesquisa: 

Coração de Menino de Gustavo Barroso

Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão

Coisas que o Tempo Levou, de Raimundo Menezes

Fortaleza Descalça, de Otacílio de Azevedo

O Consulado da China de Gustavo Barroso



sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Manuel Sampaio o governador do Período Colonial


Manuel Inácio de Sampaio e Pina Freire foi o quarto governador do Ceará no período colonial. Seu mandato de governador entre 1812 e 1820 foi um dos mais polêmicos, feito de realizações, autoritarismo, perseguições e repressões. Ficou famosa sua fidelidade ao governo central português. Hoje Governador Sampaio nomeia uma rua do Centro de Fortaleza.

Foi o primeiro administrador a incentivar as artes e as letras no Ceará, promovendo outeiros ou serões literários; criou os Correios e a implementou as Alfândegas provisórias de Fortaleza, em 1812 e das cidades de Granja, Sobral e Crato; construiu novos edifícios públicos, entre os quais o Mercado Municipal. Coube também ao governador Sampaio a recuperação do Forte de Nossa Senhora da Assunção, que se encontrava em estado precário e quase em ruínas. Sampaio contratou os serviços do engenheiro Silva Paulet que elaborou o projeto. Os fundamentos do edifício foram lançados pelo governador em 12 de outubro de 1812. A obra foi feita principalmente com donativos angariados pelo governador e seu antecessor Barba Alardo de Menezes, a quem, segundo João Brígido, coube a ideia de reedificar a fortaleza.

 A casa que pertenceu a José Antônio Machado e onde estiveram diversos órgãos públicos, foi a primeira sede dos Correios. Foi demolida para a construção do Fórum Clóvis Beviláqua. (Imagem Arquivo Nirez)

No quesito servilismo, mandou que a população da vila de Fortaleza festejasse com luminárias, por três noites consecutivas, o nascimento do filho de D. Pedro Carlos, o infante D. Sebastião de Bourbon e Bragança. Quando foi notificado da morte de D. Maria I (primeira rainha reinante de Portugal), em 15 de junho de 1816, determinou que todo povo da vila e distritos vestisse luto rigoroso por seis meses e aliviado por igual período. 

Dona Maria I, a louca. Rainha reinante de Portugal e Algarves, faleceu a 20 de março de 1816, no Convento do Carmo, no Rio de Janeiro (imagem wikipédia)

Atendendo que os pobres e os escravos não podiam atender rigorosamente a esta determinação, por questões econômico-financeiras, permitiu que os homens trouxessem no chapéu e as mulheres na cabeça, qualquer retalho preto. Os que se recusassem seriam punidos com 30 dias de cadeia, para cada vez que fossem pegos sem o distintivo.

Segundo historiadores o Sampaio foi o responsável pela prisão e tortura de Bárbara de Alencar, mantida prisioneira em uma pequena cela subterrânea da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Além de Bárbara, outros membros da família Alencar foram presos, acusados de subversão pelo governador, devido ao envolvimento da família com a Revolução Pernambucana de 1817.

Prisão de Bárbara de Alencar no subterrâneo da Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção (imagem da internet)

O governador Sampaio deixou o Ceará em 12 de janeiro de 1820 para assumir o governo da Capitania de Goiás, por ordem do reino de Portugal, sendo substituído no Ceará pelo Francisco Alberto Rubin, Capitão de Mar e Guerra, Comendador da Ordem de Cristo, nomeado por decreto de 4 de julho de 1818.

O Manuel Sampaio permaneceu no posto de governador de Goiás, até 1822, data da proclamação da Independência do Brasil. Ao voltar a Portugal recebeu da rainha Maria II o título de visconde, tornando-se então o primeiro Visconde de Lançada. Casou-se, em 1 de fevereiro de 1826, com Helena Teixeira Homem de Brederode, com quem teve dois filhos. Manuel Sampaio nasceu em Bragança, Portugal em 1778 e faleceu em 1856.  

No período colonial, visando manter o controle e centralização da administração nas colônias, e mais tarde, visando o desenvolvimento, o Governo de Portugal instituiu o sistema de Capitanias Gerais, em vigor até 1821. A partir de 1821 as capitanias foram convertidas em províncias. O Governador Sampaio veio dentro desse contexto.  


Fontes: Ceará (homens e fatos), de João Brígido

Revista do Instituto do Ceará/Administração Manoel Ignácio de Sampaio

Wikipédia